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Tornados nos Estados Unidos, massacre na Síria, crise na Grécia, eleições de fachada no Irã, o mundo continua produzindo desastres diariamente. O Brasil segue, aparentemente, alheio a essas tragédias naturais e sociais, mas temos um mal particular, uma tragédia só nossa que escreveu mais um capítulo vergonhoso: a política Brasileira. Nos últimos dias novos eventos ganharam atenção no nosso mundo político, bizarrices como só o Brasil poderia produzir. A apoteose do improvável começa com as eleições no Rio, antigos e ferrenhos adversários se uniram para levar seus filhos ao poder. O filho de Cesar Maia irá entrar na disputa à prefeitura tendo a filha de Garotinho como vice. 
Garotinho é o tipo de político mestre em usar uma postura popular e reacionária para agradar o povo. Vive com a Bíblia debaixo dos braços e joga para debaixo do tapete os escândalos de corrupção em que se envolveu e a participação na chefia de um esquema corrupto da polícia do Rio, que dava cobertura a Máfia dos Caça-Níqueis. Garotinho foi condenado por FORMAÇÃO DE QUADRILHA - e não era de Festa Junina - a 2,5 anos de prisão em 2010, mas a pena foi convertida em serviços à comunidade. Em uma entrevista recente comparou o governador do Rio a vilã da novela das 9 da Globo, Tereza Cristina e o prefeito a seu puxa-saco particular, Clodoaldo Valério. Estaria ele tentando criar uma antipatia pública da atual gestão vinculando sua imagens a vilões da TV? Indiferente a isso, essa atitude de Cesar Maia em se unir a Garotinho só demonstra que o improvável em política não existe quando o objetivo é chegar ao poder.
Em São Paulo, chama a atenção os possíveis candidatos, o ex-Ministro da Educação Fernando Haddad, vai ser candidato pelo PT, tirando o fato de ter machando anos de prestígio do ENEM através de sucessivos erros de ingerência, eu simpatizo com o Haddad, embora tenha minhas dúvidas sobre sua boa atuação como prefeito de São Paulo. O fato mais alarmante de sua pré-indicação é o movimento que o Planalto está fazendo para garantir apoio a seu candidato, a estapafúrdia indicação do bispo da Universal do Reino de Deus - aquela mesma que está na mira do Ministério Público - e senador Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca. O que choca além do novo Ministro não ter afinidade nenhuma com o Ministério, é o fato da indicação ser descaradamente voltada a interesses políticos e não ao desempenho de um bom trabalho. Crivella é do PRB e sua indicação aproxima o partido do governo Dilma, visando garantir apoio a candidatura de Haddad, e pode influenciar o PRB a não lançar candidato próprio em São Paulo, que possivelmente seria Celso Russomano, hoje o segundo colocado nas pesquisas de intenções de volto. Além de tirar o incômodo Russumano do caminho, essa indicação de Crivella vai aproximar o governo - e o Haddad - dos evangêlicos que fizeram um burburinho enorme pra derrubar o programa contra homofobia nas escolas, que foi descaracterizado pela bancada evangêlica e pela mídia como o "kit gay", todos devem lembrar que Haddad foi o ministro que apresentou o projeto. No fim, essa indicação ao Ministério da Pesca pode render um cardume de votos evangélicos para a candidatura de Haddad.
Um possível concorrente de Fernando Haddad, é José Serra, que lançou-se como pré-candidato, agora depende da decisão do seu partido. Com Serra no páreo a eleição pode tomar caminhos perigosos, quem não lembra da eleição presidencial de 2010 onde o obscurantismo e a desinformação reinaram? Na campanha Serra vestiu-se totalmente de conservador, com uma postura reacionária e com direito a oração na propaganda partidária, divulgação de informações caluniosas e aliança com líderes evangêlicos - que se pudessem instituiriam a teocracia no país - numa das maiores e piores demonstrações do espírito reacionário e manipulador da direita brasileira.
Se esse modelo vergonhoso de campanha, onde não se discutem programas de governos, mais criam-se figuras fantasiosas de representantes do bem e do mal vigorar na disputa em São Paulo, há o risco de intensificarem os ataques de intolerância que já vemos acontecer diariamente nas ruas da maior cidade do Brasil.
O terceiro personagem destaque dessa disputa é o Deputado Federal Tiririca, seu partido estuda lançar como candidato. Não bastasse o fato de ter sido eleito deputado, com acusações de não saber escrever e com um estampado despreparo, agora pessoas totalmente mal intencionadas querem indicar o Tiririca para a Prefeitura de São Paulo e não duvido que confirmada a candidatura ele tenha uma vontação expressiva. Claro que essa indicação é um jogo político, para garantir poder e influência ao partido, no caso o PR. Mas mesmo assim, é vergonhoso e absurdo que coloquem alguém totalmente despreparado, no ambiente político e acadêmico, para concorrer a gestão de uma metrópole como São Paulo, com complexos problemas a serem resolvidos.
A leviandade da política brasileira nos leva a esse patamar, onde talvez tenha-se que escolher entre os conchavos de Dilma e Haddad, o circo dos horreres de Serra e a palhaçada institucionalizada de Tiririca. Parafraseando os personagens do Chapolim, de Bolaños: E agora quem poderá nos defender?
03/03/2012 | 0 sensações |
Não sei se vocês têm notado, mas nas últimas semanas um ponto de luz se destaca no céu, Vênus com seu brilho emprestado tem aparecido grande, durante as primeiras horas da noite. Como um maestro que coordena o tom da orquestra de luzes no céu. Claro que é tudo ilusão, sua luz não ofuscaria nenhuma das estrelas que nós vemos, por mais minúsculas que possam parecer.
Além das fronteiras da atmosfera terrestre bilhões de pontos de luz nos dão o recado que nossa estrela amarela com se grupinho de oito planetas não tem muito de especial, a não ser por um deles onde a matéria faz cópias de si mesma e onde a consciência aflorou. Uma pequena parte dessas fagulhas celestes pode ser vista da superfície da Terra, destacando-se sobre um manto negro. Desde os tempos remotos do alvorecer da vida são elas a nossa ligação com o universo das galáxias longínquas.
Por isso não tem como olhar para cada uma dessas estrelas, distantes milhares de anos-luz, e não imaginar os seus arredores. O que haverá em volta de cada uma dessas fornalhas de hidrogênio? Eu imagino, em volta de muitos desses sóis, planetas rochosos ou asteróides, ambientes totalmente diversos do encontrado no Sistema Solar. Mundos estéreis, possíveis fontes de vida que deram errado. Porém, entre tantos erros, entre tantos acasos, alguns devem ter dado certo. É muito provável que planetas a alguns anos-luz ou a meio universo de distância tenham oferecido condições para o desenvolvimento da vida. E ao contemplar uma estrela à noite podemos estar vendo um sol que como o nosso é combustível para a vida de planetas que o circundam. Podemos estar contemplando um pedaço do universo como o nosso, onde o milagre da vida aconteceu.
Então me pergunto como seriam essas formas de vida? Devem ser totalmente diferentes das que existem na Terra, seres com aspectos e características particulares, criadas pela adaptação ao seu mundo. Seriam eles compostos por carbono, como nós criaturas da Terra, ou os blocos de montar da vida nesses mundos seriam diferentes? Talvez entre essas formas de vida existam algumas como nós que desenvolveram consciência. Eles podem estar olhando para o céu agora e também se perguntando, o que há além das fronteiras do seu mundo. Será que eles têm religião, acreditam em Deuses?
Caso esses seres, como nós, tenham desenvolvido tecnologia, podem com seus aparelhos estar estudando o céu. Talvez até já tenham apontado seus instrumentos de pesquisa para o conjunto de 100 bilhões de estrelas que chamamos de Via-Láctea, o nosso lar. Se forem como nós, devem estar mais preocupados com o centro da galáxia e os eventos assustadores que ocorrem por lá, mas talvez possam ter estudado a periferia, quem sabe até a espiral onde se encontra o Sistema Solar, curiosos e inconscientes que aqui há uma espécie, que como eles, olha para o cosmo maravilhada e cheia de dúvidas.
E só o fato de fazermos as mesmas perguntas já nos aproximaria. Mesmo a distâncias infinitamente superiores ao tempo de uma vida humana e a adversidade de uma viagem ao seu encontro, teríamos uma ligação. Seríamos irmãos em uma jornada cósmica em busca da verdade. Porque enquanto observamos o infinito do cosmo sobre o nosso céu, estamos vendo materializar-se a mais profunda das questões, cuja resposta é procurada desde a origem da nossa consciência humana como parte do universo: Somos consequência de uma série de acasos no oceano cósmico ou somos o sopro de vida de um criador que arquitetou todo o universo como a mais completa prova de sua grandiosidade e mistério?
O homem vive sobre a Terra há 200 mil anos, e nos últimos séculos conseguiu dar um salto de tecnologia e conhecimento. Imagino então o que uma espécie curiosa com mais tempo de existência, e um espírito menos belicista que o nosso, pode já ter atingindo de conhecimento sobre o universo. Qual seria o grau de conhecimento de uma espécie que povoa um planeta qualquer há dez milhões de anos? Pode parecer muito tempo, mas é menos de um décimo do tempo que os dinossauros viveram sobre a Terra, talvez essa civilização tenha um conhecimento profundo do cosmo, inclusive o conhecimento definitivo sobre sua origem, talvez até a viagem entre mundos seja algo comum para eles, como é para nós sair de um continente a outro. Um dia, quem sabe, encontraremos a resposta, pena que será tarde demais para mim e a minha geração, mas só de olhar para o céu já é um alento. Passar horas a contemplar tanta beleza e mistério. No fim, as perguntas e suposições que faço ao me deparar com o infinito, talvez sejam mais impressionantes e importantes que as respostas que podem estar escondidas na origem de tudo.

25/02/2012 | 1 sensações |
Cogitar é quase querer
eu cogito o que pode vir a ser
um caminho bem à frente.
Eu quero o que não sou
e onde eu não estou presente.

Eu cogito possibilidades
possíveis felicidades
de uma vida boazinha
ser um filho e um bom pai
sem complicações demais
sem rotinas tão vazias.

Mas o quero está mais fundo
quero descobrir o mundo
deleitar-me na loucura
e encontrar a ternura
daquilo que se perdeu.
Quero o ser o meu veneno
e também a minha cura.

A vida, a verdade, a razão...
quero achar o x da questão
preciso encontrar o sentido
para o que há e o que sou.
E não vou me ater
a superficialidade de ser
só mais um que acreditou.

E ser tão diferente
Como um rastro de loucura
Talvez seja a essa altura
Tudo que me é permanente.



30/01/2012 | 4 sensações |

Saudade é um desafio para o coração, que a Naty me passa agora para desafiar à cabeça. Sabe aquela palavra que já soa densa e um pouco triste? Pois está é a saudade. Saudade nem existe em algumas línguas, justamente porque sempre conseguiremos senti-la melhor do que descrevê-la em nosso vocabulário. Talvez, por isso, seja mais fácil descrever situações-saudade do que o sentimento saudade. Saudade, para mim, pode ser a sensação trazida por uma conversa intimista com três amigos, em uma ilha próxima ao Recife, com estrelas cadentes pintando o céu com suas luzes, onde o único objetivo era compartilhar o que se é. Saudade é não compartilhar para sempre.
Como também é a distância do cheiro, do toque, da pele de quem se ama. Saudade é o sinal de que algo em nossa alma não está como deveria, logo saudade é a febre do amor.  Essa é sua maior expressão, sua maior sensação e sua forma de menor entendimento, é onde nos perdemos na lembrança. A recordação é o nosso antídoto contra a saudade, pois é nela que conseguimos diminuir a carga de tristeza e dúvidas do estar longe. Saudade é o espaço entre dois corpos que buscam ser um só.
Saudade é uma das poucas palavras que conforta e dói. Saudade é a certeza que valeu a pena, não importa o que tenha sido: valeu amar, valeu conhecer, valeu provar, valeu ter, valeu viver. Sinceramente eu não gostaria de morrer sem ter sentido saudades de nada. Seria como se minha vida tivesse passado em branco, uma folha limpa ou uma cheia de rascunhos que não vale a pena lembrar. Ninguém quer viver de rascunhos, mas já que nada é para sempre, que possamos pelo menos viver de saudade e de cada momento em que ela vai deixar sua marca.


12/01/2012 | 4 sensações |
Dois olhos brilhando
falando de Deus
dois olhos guardando 
segredos tão seus.

Dois olhos segregando
histórias de vidas passadas
dois olhos na estrada
cruzando com os meus.

Dois olhos brilhando
quasar no quintal do universo
olhos-raios em pleno oceano
célula onde começo.

Dois olhos arteiros
querendo encantar
dois olhos de versos
querendo brotar.

No verso em vão
que me proponho a tirar
desta folha de espelhos
sobre olhos de mar.
02/01/2012 | 5 sensações |

É dezembro. É Natal no calendário
o pisca-pisca lá na árvore
cintila também na fachada
porta ornada com um gorro do Velho Noel.

Lá na praça uma manjedoura
pra lembrar a de Belém
e todos dizem que é pela paz, pelo amor, pelo bem
mas o que todos esperam desse Natal do calendário
é o décimo terceiro salário.

Batem os sinos na noite infeliz
porque ela falou demais, só pra não perder a piada
nessa confraternização de fachada
nessa anti-renovação
porque Natal de melhores atitudes, só na ficção.

Olhar para dentro e sentir paz
numa melhora a cada dia
essa é a tal magia que deveria vigorar
mas neste feriado de presentes embalados
tantos defeitos que levamos com certeza
vamos em mais um ano empurrar com a correnteza.

Mas não pense você
que eu desacreditei do Natal
ainda acredito nesse espírito
na Confraternização Universal.

Natal é para acolher e para colher
se agimos sempre igual nesse mundo decadente

no Natal vamos buscar o diferente
um pouco de amor não pode fazer mal.


Seja para nós crença vã ou salvação
O Natal tem seu papel
Acredite você em Cristo ou em Noel.

Só não tem a solução para te fazer melhorar
mas olhe para o céu na Noite de Natal - não custa tentar
e busque a estrela guia que vai te fazer brilhar.
assim ouvirás os sinos insistentes a dizer
que o Natal chegou em você.


Dorme em paz, ó Jesus.
19/12/2011 | 1 sensações |
Aquela menina passou de relance, cabelo curtinho, roupa discreta, um livro não mão. Não parecia uma estudante, apesar da rapidez da passagem pude ver a capa da obra, "A revolução dos bichos", um clássico sobre o perigo da confiança cega nos governos e como estes tendem a corrupção. Logo a perdi de vista, entrando na fila de uma sala do cinema. Sentado naquela praça de alimentação, me peguei pensando em que moça hoje em dia, ou em qualquer época, iria ao cinema carregando um livro nas mãos, como se circulasse por uma biblioteca. E aquela figura magra, de semplante sério e seu livro na mão me cativou. Fui até a bilheteria e conferi a hora em que terminaria a sessão da sala que ela estava, na espectativa de poder vê-la de novo. Enquanto esperava, ficava observando as pessoas entre compras e sorrisos a alimentarem seu desejo de ter, de manterem sua vida confortável alheio a um mudo de desmandos e privações do lado de fora. Me perguntava  o que havia por traz daquelas pessoas, seus sonhos, sua visão de mundo, o que esperavam e faziam pelo futuro... O que a bela moça de cabelos curtinhos, estaria fazendo nesse momento, o que ela esperava e fazia pelo futuro? Entre pensamentos, comecei a notar uma movimentação em direção a uma das saídas do shopping, a sessão havia acabado e eu não percebi quando a garota passou, fui em direção a multidão e a vi ao longe. Corri em direção a seu encontro, me fazendo recordar de uma outra garota que me fez correr não em busca do que guardava na cabeça, mas no coração.
 - Oi, moça, espera um pouco. - Disse-lhe enquanto tocava em seu braço.
Ela se virou assustada com o inesperado da situação. Um estranho parando-a na saída de um shopping sem motivo aparente.
 - Desculpa o mal jeito, me chamo Hélio, vi você entrando no cinema com um livro na mão...
- Oi? Você está tentando me cantar ou é um curioso compulsivo? - perguntou-me.
A resposta dura me fez corar e ao perceber a minha situação ela em seguida amenizou.
- O livro era para emprestar a um amigo. Eu espalho a sua mensagem sempre que posso, mas ele furou comigo e para não perder a viagem fui ao cinema. Satisfeito?
- É uma boa mensagema se espalhar, considerando que nós vivemos como os animais dessa fazenda e mesmo assim,  como eles, também fechamos os olhos para as atitudes de quem está no poder.
- Pois é! Como gado seguimos em direção abatedouro.
Ela está certa. Já não sabemos quem somos, nem para onde vamos. Porém no olhar que ela me deu e ao passar o telefone, percebi que estava de frente a uma nova amiga. Muitas conversas aconteceram depois desse encontro inicial, somos próximos e nos entendemos e apoiamos entre tanta gente da cidade. Esse já é um sentido para viver, está próximo de quem queremos bem e seguir sempre na construção do futuro ideal.







07/12/2011 | 3 sensações |
E são duas mãos que me dizem
do toque de vida do amor
e são duas mãos que me fazem
como dois aprendizes, como um único mistério
de não saber quem eu sou.

São duas mãos espalmadas
tocando-se em palmas de grande furor
são duas mãos delicadas delícias guardadas
de um intocado caminho.

As duas mãos paralelas tremendo tão belas
guardavam num gesto tranquilo seus traços iguais.
As duas mãos sem rotina só viam na esquina
dois sóis diferentes de dedos bem quentes
em um caminho de nunves de baixo pra cima.

Eram duas mãos aventureiras
dançando certeiras na era do dance
eram duas mãos atraentes
traindo a verdade em espamos ardentes.

Foram duas mãos saudade de tempos já vistos
que escondem a idade pousadas no sofá.
Foram ou são duas mãos tristonhas
nessa mentira medonha que é o medo de amar.

Quem dera duas mãos que se laçam num gesto de amor
duas mãos de amigos, mãos de homens, mãos de dor
Quem derá mãos sem adeuses, sem gestos inomináveis
mãos de dois rapazes em estado de topor.
26/11/2011 | 0 sensações |



Eu tenho estado afastado do blog, mas uma coisa me fez escrever novamente. Um sentimento de angústia tem me tomado nos últimos dias. Um receio pela vida! Tenho visto uma infinidades de notícias de mortes no trânsito, por violência gratuíta e doméstica, por desamor e desapego a humanidade que devia ser tão intrísica a cada um de nós. Me assusta e me desanima esse irrelevância da vida do outro, me assusta que cada morte seja só mais um número numa estatística de como estamos mais perto da barbárie a cada dia, como estamos a caminho de não ter sangue, mas veneno correndo nas veias. Será que nascemos para ser o veneno do outro? Se há muito se pergunta qual o sentido da vida, eu pergunto:  Foi para isso que saímos de cima das árvores há algumas centenas de milhares de anos? Qual o sentido de cada morte evitavel que vemos diariamente? Quanto perdemos como sociedade com o fim de pessoas cujo potencial nunca será conhecido? Quanto perdemos como pessoas por só temer e sofrer pelos nossos? É preciso falar, reagir, cobrar. Quantos mais terão de fechar os olhos para que abramos os nossos?
Enquanto isso a mídia segue transformado sentimentos e sensações em mercadorias, num jogo onde amor, felicidade, força, paz e companheirismo têm seu preço. As pessoas parecem ter comprado bem a idéia e assossiam o ser e o ter ao consumo. Estamos cada vez mais bonitos por fora e estragados por dentro.  Sentimentos delivery não duram muito. O mundo vive uma crise financeira, quando o dinheiro acabar, o que seremos afinal? "Meias palavras não bastam, é preciso acordar" diz uma canção que eu ouvi uma vez. Morfeu nos embebedou de uma maneira tão forte que não conseguimos reagir? Eu espero que se reconheça o valor da vida e o valor do outro. Espero que justiça não seja só um conceito jurídico abstrato, mas uma prática da sociedade que respeita seus integrantes. Que anceia para que o perigo não siga a espreitar cada ser humano, através das atitudes vis de outros. Eu lhes peço não morram, vocês são importantes para o mundo, além do mais chega a ser irônico, mas em um tempo em que as vidas valem tão pouco, morrer custa muito caro.
15/11/2011 | 5 sensações |
Minha querida Lucy,

não poderia ir embora sem me despedir de você. Ainda não entendo bem como aconteceu a nossa involução de grandes amigos para meros conhecidos. Talvez tenha sido depois que eu te disse que amava a Clarisse, eu sabia do amor que você nutria por mim, porém, achei que fosse entender. Você não entendeu, né?! Foi além, me deixou sem você, eu que já não tinha outros amigos, nem a Clarisse. Só me restou um CD de Chico Buarque que você esqueceu aqui em casa, será usado no momento certo, depois você pode tê-lo de volta. Espero que já tenha superado, eu sempre amei você, mesmo não sendo como você esperava. Eu também gostaria que fosse diferente, mas se existe um roubo sem castigo, é o de coração, a Clarisse levou o meu e não vai devolvê-lo. No lugar deixou apenas uma vela queimando, por dentro, dia-a-dia, já se passaram muitos dias, a cera vai findar logo. A vida anda estranha agora que não a vejo, estranhamente ainda mais do que era antes de a conhecer. Não temos contato desde que eu disse que a amava e a beijei na festa de aniversário da mãe dela - sem perceber que seu namorado assistia a tudo - ela me deu um tapa, e disse que nunca mais a procurasse.
Eu cumpri seu desejo, como todos os outros de quando éramos amigos. Não a procurei, e te confesso Lucy, que acabei me perdendo depois disso. Não sobrou muita coisa a que me apegar, e nem com o meu coração eu posso contar mais. Não sei te dizer se foram mais desgastantes as noites sem sono ou os dias sem vida. Vendo cara hora trazer consigo mais peso à minha respiração e sentido cada gota de água liberada pelos meus olhos me deixando mais azedo. Meu quarto está uma bagunça, mas ainda consigo sobreviver nele. Na minha cabeça, porém, a desordem é tamanha que não consigo conviver com ela. Foram dois meses até chegar a essa tarde, onde procurei respostas e caminhos, mas é difícil construir estradas quando o seu destino não está do outro lado. Hoje, eu vejo que só resta um atalho, o caminho de pedras já machuca demais os meus pés.
Você vai ser fundamental, na minha vida (!?), nos próximos dias. Vai lembrar a minha família e aos meus amigos, ou seja, vai lembrar também, que os amo, apesar de todas as diferenças que sempre ouve entre nós. Lembra daquela coleção de CD's e de cadernos que você adorava, Lucy? Pois são seus agora, não tenho nada melhor a te oferecer, mas sei que ficará feliz por tê-los. Limpem o quarto e não deixem nada guardado, dêem o que possa ser útil para quem estiver precisando. Só peço que mantenham meu anel de prata, coloquem-no dentro do porta-jóias que está na terceira gaveta do guarda-roupas e depois deixem na estante. O meu diário você deve queimar e use as cinzas para acomodar o anel preenchendo todo o espaço do porta-jóias.
Obrigado por me ouvir até agora meu bem, você deve saber que está me fazendo um enorme bem com isso. Peço ainda que deixe um recado meu para Clarisse. Diga que para ela eu deixo todo o amor que eu já senti um dia, e todos os melhores sentimentos e boas vibrações que eu consegui produzir. O melhor de mim eu criei para ser melhor para ela. Desejo que ela seja feliz, e isso me fará infinitamente bem. E, diga ainda, que se ela puder, dê um bom destino ao meu coração. Não o deixe lagardo em nenhuma calçada fria ou embaixo da cama, no escuro. Ela deve lembrar que eu detesto o frio e o escuro, principalmente.
Peço ainda Lucy, que não chore, isso é tão deprimente. Não adianta deixar a vida mais feia, a morte é normal, apenas uma pausa. Perdoe-me por não ir te ver, mas não queria sair de casa hoje. Vou parar de escrever, estou com o peito apertado, quero que termine logo. Tenho que me preparar, tomar água, preciso de água. Se tudo acontecer como espero, o garoto vai lhe entregar essa carta antes das 19:00 horas e quando você chegar - sei que não irá demorar - o rádio ainda tocará Chico, peço que tire o seu cd e leve.

Um caloroso beijo, minha amiga.
Sempre juntos...

Arthur.
___

Epílogo: Quando terminou a última linha Lucy estava em choque. Apesar dos pedidos do seu amigo não pode evitar que uma lágrima molhasse seu rosto. Pegou o carro e partiu para o apartamento do amado. Sentia que a porta não estaria trancada com chave. E não estava. Ele já a esperava... Tomada por um medo enorme abriu a porta e se deparou com a sala vazia. Correu até o quarto e viu o corpo frágil deitado na cama. Ele parecia dormir, tinha um semblante tranquilo e em paz. Lucy o tocou e viu que seu coração não batia, também não havia sinal de uma chama de vela a lhe aquecer e o corpo já perdia seu calor. O aparelho de som tocava a introdução da última faixa, Acalanto, do CD Construção. Escutava a melodia triste seguida de umas palavras que ela nunca ouviu tão claramente...

Dorme minha pequena
Não vale a pena despertar
Eu vou sair
Por aí afora
Atrás da aurora
Mais serena.


Republicação.
07/11/2011 | 3 sensações |
Vou escrever em ecos a poesia dos outros
amores, verdades, canção, consolação.
E esquecer de lembrar que a minha já não está
Já não diz, ou dizia... é preciso dizer com poesia?
Se eu ao menos sentisse tudo o que eu poderia...

Nessa terra difícil onde sobejam penas
o amor faz nascer na aurora mais pequena
aquela densa felicidade que o dia levantou
qualquer maneira de amor vale a pena
qualquer maneira de amar é amor.

Que seja infinito enquanto dure
me faz lembrar da Teoria do Caos
que seja maior que um amor de carnaval
que passa como passou o vento
menina branca de neve, me leve no esquecimento.

Meu Deus do Céu, eu não tenho nada a dizer.
e não falar é o mesmo que não ser.
O que no fundo dessas causas e efeitos
entre tantos entremeios dessa nossa vida cão
pode vir a ser inspiração?

Um cidadão parado correndo na contra-mão
com os filhos nas costas e o asfalto no chão
trazendo de volta a revolta dessa sua condição
de não ser parte de uma vida de arte em um mercado de nãos.
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir,
Deus lhe pague.


E não consigo lembrar de escrever de outro jeito
nessa vida sempre igual, igual tema é o meu defeito.
A dor do outro e a minha própria
O amor de fato e o de ilusão, a causa perdida
a vida perdida e gente perdida e a redenção.

De tantas palavras lembradas, escritas no coração
da poesia do outro e da sua inspiração
espero poder revivê-las dessa singela maneira
nessa incansável intenção de ver mais poesia na vida
menos verdades ditas, mais verdades sentidas, nessa eterna construção.
Eu sonhava, como a feia da vitrine. Como carta que se assina em vão.

Notas do autor: Com trechos (linhas em itálico) de Caetano Veloso, Vinicius de Morais, Ferreira Gullar, Clarice Lispector, Chico Barque e Oswaldo Montenegro.
22/10/2011 | 1 sensações |
Criança em mim acorda
vai brincar na rua, solta
vai molhar a tua roupa
na chuva de inverno e verão.

Chama teus amigos depois da janta
para o pique-esconde
se pergunta onde aquela estrela está
e olha para ela toda amarela lá no céu reinar.

Sonha se esconder lá na estrela
para o teu amigo não te achar
depois conta até um milhão
e volta da estrela até o chão.

Criança, brincadeira não faz mal a ninguém
corre na calçada, joga uma pelada
brinca com o que tem, a festa é tão tua
como de quem vem brincar também.

Criança usa a máscara de coelhinho
seja bonzinho, espere o papai Noel
no Natal ele vem te trazer um castelo
um dragão amarelo e um ano novinho também.

Minha criança, eu digo
teu amigo invisível nunca vai te deixar
vai secar o teu choro, teu parceiro será
te ouvindo com atenção e te guardando ao deitar.

Criança em mim retorna
para mais que um breve despertar
chora com medo do trovão, sonha com nuvens de algodão
porque o mundo de então, não te permite sonhar.
12/10/2011 | 1 sensações |

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