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As vezes eu só quero descansar
Desacreditar no espelho
Ver o sol se pôr vermelho


Acho graça
Que isso sempre foi assim
Mas você me chama pro mundo
E me faz sair do fundo de onde eu tô de novo


(Marcelo Camelo)

Você deve está se perguntando:
- O que você faz jogado nesse sofá como um trapo sujo e sem valor cara?
- Vivendo - digo.
A vida é uma paleta de cores, como um pôr-do-sol, como um arco-íris, como uma aurora boreal, mas a minha cor é vermelho. Rubro sangue, da cor das rosas despedaçadas pela indiferença daquela menina de olhos vermelhos. Nesse sofá eu intensifico a cor da minha vida na pele machucada por ficar horas recostada nesse sofá velho ou no sangue que meu coração derrama.
Vou te explicar bem rápido, para não nos cansarmos. Nunca tive ilusões de princesa encantada com a Shopia, mulher linda de cabelos negros e pele branca como uma nuvem, vestia muitas cores e adorava o negro. Era livre, impulsiva e temperamental de uma forma que eu nunca imaginei haver. Porém entre tantos sentimentos e tons o que mais me recordo é o vermelho dos olhos dela, forjado no uso de drogas e noites a fio de sono perdidas entre bebidas e cigarros. Aquela íris negra cintilante flutuando num mar vermelho era como um desenho do demônio para me enfeitiçar.
Tentei chegar junto, uma vez, duas, três nem consigo mais lembrar, mas para ela nunca fui mais que um admirador pretensioso, um afago no seu ego dopado por toxinas, como seu corpo. Trocamos palavras algumas vezes sua voz era quente, mas distante, como se uma interferências constante me impedisse de ouvi-la bem. Assim passaram-se meses. Certa noite a encontrei caída nos puffs de uma boate. Dormia, fui até lá e coloquei seu rosto no meu colo, peguei seus longos cabelos negros e toquei sua pele de vinte e poucos anos, ela era realmente linda e estava certo que a amava cada dia mais. Não entendia por que, mas amava, queria levá-la dali para a minha casa, para a minha cama. Fazê-la só minha - depois de ser de tantos - e deixar que a brisa da madrugada entrasse pela janela e embalasse nosso sono com seu assovio. Queria poder mudar a vida dela, tirá-la das drogas e me tornar seu único vício. Enquanto eu pensava tudo isso ela acordou, sorriu para mim e saiu um pouco cambaleante até se perder entre as luzes e a dança frenética do outro lado da parede.
A vi de relance na outra semana perto da esquina de sua casa, dois dias depois a encontraram morta. A causa eu nunca quis saber. Fui até lá havia um pouco de sangue no chão, o mais vermelho que já vi, aquele sangue que pingava rubro pelo chão parecia limpar os seus olhos, que estavam brancos pela primeira vez. Nunca gostei tanto do branco. Ela se foi e só ficou para mim o vermelho que a consumiu e me consome dia a dia em forma de saudade e dor. Ás vezes, durante a madrugada, ela vem com o vento e assovia uma voz fria junto a meus ouvidos e de olhos fechados eu vejo seus olhos, ora brancos, ora vermelhos como faróis iluminando os meus sonhos mais secretos.

Confira outros escritos com o mesmo tema enh: http://postcoletivo.blogspot.com/2011/07/postagem-04082011.html
04/08/2011 | 3 sensações |

3 sensações:

  1. Ju Fuzetto
    4 de agosto de 2011 16:21

    Impecável Ti.

    beijo

  1. Anthony Dostoiévski
    4 de agosto de 2011 20:07

    O amor platônico doendo como sempre...
    sempre queremos ser a droga do amor de alguém, resolver a vida do outro.,..
    mas não somos em muitos casos...
    o que fazer?
    sofrer e simplesmente viver...

    braço e bom texto...

    curte ai meu blog
    http://acasaeorestodarua.blogspot.com/

  1. Paulo Vitor Cruz
    4 de agosto de 2011 22:46

    sempre fiquei um pouco incomodado com essa proposta de postagem coletiva, mas gostei da sua postagem, cara.

    abraço.

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