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Minha querida Lucy,

não poderia ir embora sem me despedir de você. Ainda não entendo bem como aconteceu a nossa involução de grandes amigos para meros conhecidos. Talvez tenha sido depois que eu te disse que amava a Clarisse, eu sabia do amor que você nutria por mim, porém, achei que fosse entender. Você não entendeu, né?! Foi além, me deixou sem você, eu que já não tinha outros amigos, nem a Clarisse. Só me restou um CD de Chico Buarque que você esqueceu aqui em casa, será usado no momento certo, depois você pode tê-lo de volta. Espero que já tenha superado, eu sempre amei você, mesmo não sendo como você esperava. Eu também gostaria que fosse diferente, mas se existe um roubo sem castigo, é o de coração, a Clarisse levou o meu e não vai devolvê-lo. No lugar deixou apenas uma vela queimando, por dentro, dia-a-dia, já se passaram muitos dias, a cera vai findar logo. A vida anda estranha agora que não a vejo, estranhamente ainda mais do que era antes de a conhecer. Não temos contato desde que eu disse que a amava e a beijei na festa de aniversário da mãe dela - sem perceber que seu namorado assistia a tudo - ela me deu um tapa, e disse que nunca mais a procurasse.
Eu cumpri seu desejo, como todos os outros de quando éramos amigos. Não a procurei, e te confesso Lucy, que acabei me perdendo depois disso. Não sobrou muita coisa a que me apegar, e nem com o meu coração eu posso contar mais. Não sei te dizer se foram mais desgastantes as noites sem sono ou os dias sem vida. Vendo cara hora trazer consigo mais peso à minha respiração e sentido cada gota de água liberada pelos meus olhos me deixando mais azedo. Meu quarto está uma bagunça, mas ainda consigo sobreviver nele. Na minha cabeça, porém, a desordem é tamanha que não consigo conviver com ela. Foram dois meses até chegar a essa tarde, onde procurei respostas e caminhos, mas é difícil construir estradas quando o seu destino não está do outro lado. Hoje, eu vejo que só resta um atalho, o caminho de pedras já machuca demais os meus pés.
Você vai ser fundamental, na minha vida (!?), nos próximos dias. Vai lembrar a minha família e aos meus amigos, ou seja, vai lembrar também, que os amo, apesar de todas as diferenças que sempre ouve entre nós. Lembra daquela coleção de CD's e de cadernos que você adorava, Lucy? Pois são seus agora, não tenho nada melhor a te oferecer, mas sei que ficará feliz por tê-los. Limpem o quarto e não deixem nada guardado, dêem o que possa ser útil para quem estiver precisando. Só peço que mantenham meu anel de prata, coloquem-no dentro do porta-jóias que está na terceira gaveta do guarda-roupas e depois deixem na estante. O meu diário você deve queimar e use as cinzas para acomodar o anel preenchendo todo o espaço do porta-jóias.
Obrigado por me ouvir até agora meu bem, você deve saber que está me fazendo um enorme bem com isso. Peço ainda que deixe um recado meu para Clarisse. Diga que para ela eu deixo todo o amor que eu já senti um dia, e todos os melhores sentimentos e boas vibrações que eu consegui produzir. O melhor de mim eu criei para ser melhor para ela. Desejo que ela seja feliz, e isso me fará infinitamente bem. E, diga ainda, que se ela puder, dê um bom destino ao meu coração. Não o deixe lagardo em nenhuma calçada fria ou embaixo da cama, no escuro. Ela deve lembrar que eu detesto o frio e o escuro, principalmente.
Peço ainda Lucy, que não chore, isso é tão deprimente. Não adianta deixar a vida mais feia, a morte é normal, apenas uma pausa. Perdoe-me por não ir te ver, mas não queria sair de casa hoje. Vou parar de escrever, estou com o peito apertado, quero que termine logo. Tenho que me preparar, tomar água, preciso de água. Se tudo acontecer como espero, o garoto vai lhe entregar essa carta antes das 19:00 horas e quando você chegar - sei que não irá demorar - o rádio ainda tocará Chico, peço que tire o seu cd e leve.

Um caloroso beijo, minha amiga.
Sempre juntos...

Arthur.
___

Epílogo: Quando terminou a última linha Lucy estava em choque. Apesar dos pedidos do seu amigo não pode evitar que uma lágrima molhasse seu rosto. Pegou o carro e partiu para o apartamento do amado. Sentia que a porta não estaria trancada com chave. E não estava. Ele já a esperava... Tomada por um medo enorme abriu a porta e se deparou com a sala vazia. Correu até o quarto e viu o corpo frágil deitado na cama. Ele parecia dormir, tinha um semblante tranquilo e em paz. Lucy o tocou e viu que seu coração não batia, também não havia sinal de uma chama de vela a lhe aquecer e o corpo já perdia seu calor. O aparelho de som tocava a introdução da última faixa, Acalanto, do CD Construção. Escutava a melodia triste seguida de umas palavras que ela nunca ouviu tão claramente...

Dorme minha pequena
Não vale a pena despertar
Eu vou sair
Por aí afora
Atrás da aurora
Mais serena.


Republicação.
07/11/2011 | 3 sensações |

3 sensações:

  1. Paulo Vitor Cruz
    8 de novembro de 2011 20:55

    enquanto eu lia o epílogo ouvi por coincidência (de verdade) a canção 'epílogo' da pitty no disco Agridoce, q estou conhecendo agora... a melhor parte é uma coisa não tem nada a ver com a outra!

  1. Charlie Bravo'
    24 de novembro de 2011 02:30

    se existe um roubo sem castigo, é o de coração...

    frase mágica do mágico que és tu. Senti aquele desejo calado de evitar o final, mas como a chuva, ele veio e lavou minha face, deixando uma nostalgia e solidão.

    Ah... respiração profunda.

    Abraço, Charlie.

  1. M.R.
    26 de novembro de 2011 22:31

    Acho que é esse o texto que tu me falou hm
    Li o ultimo trecho ouvindo "Acalanto", o que criou uma atmosfera triste..

    "E o que dizem é que foi tudo por causa de um coração partido ♫"

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